MANIFESTO BISSEXUAL SAPATÃO

“Aliás,  temos todo o direito de nos identificarmos como sapatão e viado, identidades que derivam de palavras direcionadas a nós para oprimir e são usadas como armas contra pessoas que transgridem a heteronormatividade” - Manifesto Bissexual Brasileiro, 2021


Nesse dia 31 de maio, Dia da Visibilidade das Mulheres Bissexuais, o óbvio precisa ser dito: antes mesmo de termos condições de elaborar nossa sexualidade, de sentir qualquer desejo, muitas de nós fomos e somos apontadas nas ruas como sapatonas. Não nos questionam antes sobre qual nossa orientação sexual, se somos bissexuais ou lésbicas. Nos apontam e ponto. A ressignificação do termo sapatão enquanto uma identidade e expressão de gênero também diz de nós, gostem ou não. Além disso, desde antes dos anos 1970 nós, mulheres cis, trans e travestis bissexuais, construímos o movimento social organizado brasileiro, estivemos e estamos em todos os espaços. Ignorar, apagar ou negar isso apenas diz do monossexismo de quem o faz. 


Se ofender com uma mulher bissexual que se identifica como sapatão, a ponto de vir em praça pública querer nos guilhotinar, querer dizer o que podemos ou não podemos ser, é nada mais que pedagógico: porque revela pra quem quiser ver o que é a violência bifóbica de dentro do movimento sobre a qual sempre falamos. A violência mascarada de lacre, que fere e afasta tanta gente da luta. Que adoece tantas de nós. Quando nos identificamos como  bissexuais sapatonas, não apagamos a identidade de ninguém - sabemos bem o que é apagar uma identidade (exige método contínuo e permanente, conchavos e dolo), e definitivamente não é o que fazemos. Não nos interessa em nada apagar a identidade de alguém.


Quando nos dizemos bissexuais sapatonas, apenas afirmamos a nossa identidade com base na verdade das nossas vidas e vivências. Porque acreditamos na possibilidade da coexistência, acreditamos na livre determinação de cada ser. E sobretudo, porque não é o purismo de certas pessoas que vai nos limitar. Não é um discurso que vem da completa ignorância e preconceito sobre o que é bissexualidade que vai nos intimidar. Um discurso arcaico e higienista, que não entende e não aceita a transgressão da nossa identidade política, e a coloca como menor, como menos desviante, como menos “merecedora”. Um discurso raso que busca apenas deslegitimar a bissexualidade, aos moldes do patriarcado.


Caminhamos ao lado das que compreendem as confluências entre nossas identidades, a potência das construções coletivas que galgamos ao longo da história. É nessa potência do movimento que ajudamos a construir e que parte da vivência cotidiana de cada uma de nós, mulheres cis, trans e travestis bissexuais, que acreditamos e nos importamos. 


Não há mais tempo a perder com grupos e pessoas que não se conformam com o fato de termos orgulho e consciência de nossa identidade política.


Celebramos nosso orgulho bissexual sapatão!

Brasil, 31 de maio de 2026.


Coletivo Amora, Coletivo BIL, Coletivo Bi-Sides, Combi, Frente Bissexual Brasileira.